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    Bolsa deixa crise hídrica e pico de inflação em 2021, mas espera novas tensões

    Especialistas veem potencial de recuperação, mas incertezas dificultam retorno do Ibovespa aos 120 mil pontos

    Retrospectiva bolsa de valores
    Retrospectiva bolsa de valores Maxim Hopman/Unsplash/Arte/CNN

    João Pedro Malardo CNN Brasil Business

    em São Paulo

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    O ano de 2021 pode ser dividido em duas partes para a bolsa de valores brasileira. Na primeira, o desempenho do principal índice da B3, o Ibovespa, foi de forte recuperação, com o índice chegando aos inéditos 130 mil pontos. Depois, veio uma forte queda, que jogou o índice e volta ao patamar dos 100 mil pontos.

    Para 2022, segundo especialistas ouvidos pelo CNN Brasil Business, o cenário de volatilidade não deve dar trégua.

    Internamente, a combinação de um ano eleitoral com a continuidade da crise econômica, com inflação e juros altos, pesam negativamente para o desempenho da bolsa. Já no exterior, movimentações na política monetária nos Estados Unidos também podem reduzir os fluxos de investimentos em ações brasileiras.

    Por outro lado, o Brasil continua um processo de reabertura da economia, e especialistas apontam para um potencial de valorização das ações, com alguns setores melhor posicionados para o cenário do próximo ano.

    Desempenho em 2021

    Em 2021, a bolsa foi ainda mais volátil que em 2020, destaca Alexandre Sabanai, portfolio manager da Perfin Investimentos. No ano passado, as ações tiverem uma queda generalizada com a incerteza da pandemia, mas depois começaram a se recuperar.

    Já neste ano, o Ibovespa começou com cerca de 120 mil pontos e seguiu o resto do ano entre altos e baixos.

    A nova onda de infecções, em março, reverteu o movimento de recuperação, mas ele retornou com “euforia” a partir de abril, conforme os casos e mortes reduziram e a vacinação avançou. Em junho, o Ibovespa chegou ao maior nível da história, com 130 mil pontos.

    “Mas aí houve um novo revés no Brasil de junho para julho. Os eventos deterioraram a expectativa de inflação, com um efeito mais permanente que o esperado da crise hídrica e o inverno mais rigoroso que o imaginado, que impactou as plantações e afetou o preço das commodities agrícolas”, diz Sabanai.

    O cenário levou a uma alta da inflação, e consequente alta da taxa básica de juros, a Selic. A deterioração do cenário econômico derrubou as ações, mas a política fiscal do governo, com a PEC dos Precatórios e uma alta nos gastos com benefícios sociais, gerou incerteza e medo no mercado.

    Com isso, o Ibovespa foi aos 102 mil pontos, e desde então não consegue atingir os 110 mil.

    Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, avalia que, no geral, o desempenho no ano “não foi bom”. “Alguns setores, em especial commodities, tiveram um desempenho melhor, mas no segundo semestre, com ruídos políticos e fiscais, em especial com PEC dos Precatórios e Orçamento, houve muita incerteza e aumento de risco e, então, a bolsa caiu”.

    Já Pietra Guerra, analista da Clear Corretora, lembra que o primeiro semestre contou com um grande número de ofertas públicas iniciais (IPOs) de empresas, que foram rareando conforme o ano passava.

    Ela afirma que “o que ocorreu foi mais uma frustração das expectativas, a agenda de reformas avançou pouco, a questão fiscal foi revista, o arcabouço fiscal mudou com a revisão do teto, a percepção de risco aumentou e a inflação se mostrou mais forte”, diz. Com isso, a bolsa acabou devolvendo boa parte dos ganhos do primeiro semestre, e deve terminar 2021 em queda na comparação anual.

    Segundo Guerra, o desempenho no 4º trimestre tem sido um pouco melhor que o anterior, mas é difícil saber se isso continuará em no próximo ano.

    Brasil já entra em 2022 com cenário difícil

    Pietra Guerra afirma que, economicamente, o Brasil já começará 2022 em um cenário difícil. A perspectiva do mercado já é que o Produto Interno Bruto (PIB) no ano fique estagnado, talvez até negativo.

    O cenário econômico ainda deve ser ruim, apesar de Sabanai apontar que a inflação parece ter chegado em seu auge. Os juros altos acabam desacelerando o consumo e a atividade, o que afeta as empresas e seus lucros, incluindo as listadas na bolsa.

    Sung afirma que o cenário fiscal, e os riscos ligados a ele, “continua na agenda em 2022, e pode gerar novos ruídos. Precisa de clareza e que a casa seja arrumada, dar mais previsibilidade para a trajetória da dívida pública”.

    Pensando no exterior, ele afirma que os efeitos da inflação global devem levar a uma mudança na política monetária dos Estados Unidos, com uma alta nos juros projetada no segundo semestre.

    “Isso pode ter um impacto negativo, uma retirada de dinheiro pelos investidores para os EUA, o que afeta bolsa e câmbio, então os dois ficariam pressionados”, diz. Por outro lado, ele aponta uma normalização nas cadeias produtivas, o que deve aliviar a inflação global e ajudar a economia do Brasil, pensando tanto em exportações quanto importações.

    Para o chefe de análise de ações da Órama, Phil Soares, outro fator que deve afetar o desempenho da bolsa no ano é a quantidade menor de dias úteis de operação em comparação com 2021, devido à realização da Copa do Mundo, o que reduz as movimentações.

    Segundo Sabanai, atualmente o mercado de ações tem quatro grandes riscos para 2022. O primeiro é a permanência da inflação em nível elevado, mesmo que o patamar mais alto já tenha sido atingido.

    O segundo é a continuidade da crise hídrica, mas as previsões melhores de chuvas indicam que, aparentemente, o pior também já passou.

    Há, então, a questão política, ligada à percepção fiscal. Segundo ele, novos “apelos populistas” do governo seriam “soluços” que podem estressar o mercado, mesmo que temporariamente. Ao mesmo tempo, haverá as eleições presidenciais.

    Por fim, ele aponta a continuidade da pandemia de Covid-19. Apesar de um “cenário benigno”, com reabertura e vacinação avançando, qualquer novidade, em especial ligadas às variantes e suas gravidades, pode impactar o mercado negativamente, como o que ocorreu com a variante Ômicron.

    Sabanai afirma que, hoje, ele vê os três primeiros riscos relativamente precificados pelos investidores. Ou seja, eles não devem gerar grandes variações. Entretanto, os riscos ligados à pandemia não estão devidamente precificados, e podem levar a grandes quedas ao longo do ano.

    Impacto das eleições

    Em relatório publicado em dezembro, analistas da XP Investimentos apontaram que, em geral, a bolsa não possui um padrão claro de alta ou baixa em anos eleitorais. A tradição é de volatilidade, ou seja, muitos movimentos para cima e para baixo, em especial antes do segundo turno eleitoral.

    Guerra afirma que a grande novidade no radar em 2022 são as eleições. O cenário de polarização maior, segundo ela, contribui ainda mais para essa volatilidade tradicional.

    Já Sung aposta em uma combinação dos cenários de 2018 e 2014, em que a bolsa deve sofrer variações conforme a divulgação de pesquisas eleitorais indicarem favoritos, ao mesmo tempo em que haverá polarização entre os candidatos.

    “Os investidores vão refletir quem é o favorito e os seus compromissos, propostas, pensando na saúde fiscal. Os impactos podem ser positivos ou negativos”, diz.

    Apesar de acreditar que a eleição deve influenciar nos preços dos ativos, Sabanai afirma que mesmo os cenários mais pessimistas já têm sido precificados pelos investidores. Em teoria, os candidatos mais moderados, e alinhados a matérias defendidas tradicionalmente pelo mercado, seriam os que mais animariam os investidores, ajudando a bolsa a subir.

    Expectativas

    Mesmo citando “dificuldades macroeconômicas”, os analistas da XP avaliam que a bolsa, e seus ativos, estão descontados atualmente, ou seja, a cotação atual não reflete a cotação apropriada considerando seus resultados e fundamentos.

    Apostando em bons resultados nos setores de commodities, de empresas mais antigas (menos dependentes do cenário macroeconômico) e algumas oportunidades específicas dentre os ativos, os economistas projetam um cenário base para o Ibovespa de 123 mil pontos ao fim de 2022. No mais pessimista, chegaria a 93 mil e, no mais otimista, 145 mil.

    A Ativa Investimentos também vê os ativos descontados, mas considera um 2022 mais volátil que 2021, com questões internas e externas. Por isso, projeta o Ibovespa em 117 mil pontos no fim do próximo ano.

    Apesar de não estabelecer um número específico, Alexandre Sabanai vê um “potencial de retorno elevado” para o Ibovespa em 2022. Para ele, os melhores setores no ano que vem devem ser os que tradicionalmente repassam bem a inflação em seus preços, como o elétrico, de tecnologia e de saúde.

    A Órama avalia que o desempenho da bolsa “não deve ser surpreendente”, e aposta em ações ligadas às commodities, que ainda devem aproveitar um “bom momento global”. “Cases de retomada da circulação devem ser bons também, como aéreas, turismo e restaurantes”, diz Phil Soares.

    Ações ligadas às commodities devem ter bom desempenho em 2022, segundo analistas / Dane Rhys/Reuters

    Para Gustavo Sung, é “quase impossível prever para onde a bolsa vai. Mas, dado os cenários e riscos, o desempenho vai depender de fatores como eleições, quais candidatos, se o cenário vai ser de polarização, o cuidado com as contas públicas. E a questão fiscal pode puxar forte para baixo”.

    Pietra Guerra afirma que a perspectiva para 2022 é “mais construtivista, positiva”, mesmo com a volatilidade e algumas incertezas no próximo ano.

    “É um momento mais de pensar mais em papéis do que em setores, não é hora de comprar qualquer coisa ou vender a qualquer preço”, diz. Ela projeta uma dinâmica mais difícil para o varejo, e que ações de empresas mais sólidas, antigas, tendem a se proteger bem contra um cenário econômico adverso.

    Outro setor que ela afirma que pode ter um bom desempenho é o de commodities, assim como o de frigoríficos, educação, bancos e outros papéis específicos que possam estar descontados.

    “[O Ibovespa] pode chegar ao que era no primeiro semestre de 2021, a bolsa está parada, tem espaço para valorização. Mas alguns pontos precisam ser definidos para isso, tirar algumas dúvidas. Por exemplo, a inflação acomodar, e termos um arcabouço fiscal melhor resolvido”, afirma.

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